Arquivo

Archive for abril \16\UTC 2010

A estratégia chinesa do Banco do Brasil

16 de abril de 2010 Deixe um comentário

Leio hoje a notícia que o Banco do Brasil está com “negociações avançadas” para aquisição de 51% do Banco da Patagônia, quinto maior banco da Argentina. Segundo a coluna Mercado Aberto, da Folha de SP, o presidente do BB Aldemir Bendine deve ir à Argentina na próxima quinta-feira (22) para assinar os papéis e fechar o negócio que ainda depende de autorização do Banco Central Argentino.

Na última terça-feira, o BB já havia estado nas manchetes dos cadernos de economia por causa de outro movimento de internacionalização: o gigante tupiniquim obteve autorização do Federal Reserve (o BC norte-americano) para adquirir instituições financeiras nos Estados Unidos e operar no mercado de investimentos do país.

É muito interessante a postura do Banco do Brasil, semelhante à postura do governo chinês em relação à crise de 2008/2009. O Banco do Brasil aproveitou o momento complicado da economia para fazer diversas aquisições (incluindo aí a compra da Nossa Caixa) e agora, com a economia voltando para os trilhos, se aproveita da expansão de seus ativos para captar mais recursos e continuar o processo de expansão.

Ontem, o BB anunciou que pretende emitir novas ações no mercado. Levando-se em conta o custo das ações no mercado, o projeção é de que a captação de recursos chegue a quase R$ 9 bilhões. O dinheiro seria utilizado para a ampliação da carteira de crédito e para impulsionar o movimento de internacionalização do banco. É um movimento arrojado, muito diferente do que seria de se esperar de um banco público. Sem dúvida, é muito positivo.

Em primeiro lugar, porque deixa claro ao público que a gestão atual do banco não pensa de forma burocrática que normalmente é associada à gestão pública. Há um entendimento (positivo, ao meu ver) de que é necessário ganhar mercado para competir de igual para igual com gigantes como o Itau Unibanco, o Bradesco e o Santander. O fortalecimento das posições do BB nesse momento é muito bom se levarmos em conta a estratégia agressiva do Santander em relação ao mercado brasileiro, o expansionismo do Itaú e a vontade de recuperar a liderança por parte do Bradesco.

Além disso,  o crescimento da oferta de crédito do Banco do Brasil é sempre uma boa notícia para o crescimento da economia. Afinal, como as taxas de juros praticadas pelo BB costumam ser mais baixas do que a concorrência, é sinal de mais dinheiro circulando na economia e, portanto, mais consumo e potencialmente mais crescimento.

Anúncios
Categorias:Uncategorized

Imprensa como partido: o bônus e o ônus

1 de abril de 2010 1 comentário

Uma das características emergentes no cenário contemporâneo que mais me fascina é o papel da impresa e da mídia no jogo político. No Brasil, por exemplo, vivemos um cenário de radicalização do protagonismo da grande imprensa. Recentemente, houve até manifestações de dirigentes das associações de jornais dizendo que cabia à imprensa fazer oposição tendo em vista a atual fragilidade dos partidos de oposição.

Os analistas de esquerda atribuem o fato ao evidente alinhamento ideológico entre os proprietários dos veículos de informação e os partidos liberais que hoje compõe a oposição tupiniquim (PSDB, DEM e, com menos relevância, o PPS).

Eu, no entanto, tendo a acreditar que esse fenômeno seja muito mais complexo do que um mero alinhamento ideológico à direita: o fato é que os grupos de mídia se tornaram também eles grandes corporações e, dessa forma, compõe um grupo de interesse (um conjunto de atores com objetivos em comum) dentro do cenário político.

Ocorre que, dado o crescimento exponencial do peso econômico da informação, esse grupo de interesse recém-constituído rivaliza em “poder de fogo” com governos, indústrias, partidos políticos e outros com grande peso no equílibrio de forças de que trata o jogo político.

Com o advento da internet, a publicação de uma informação errada ou imprecisa (seja por incompetência ou por má-fé) pode acarretar perdas financeiras mais do que relevantes além de danos irreparáveis à imagem de uma pessoa, empresa ou instituição de qualquer tipo. Isso se traduz, sem dúvida, em poder de barganha nas disputas inerentes ao embate político. Dessa forma, a imprensa goza dos benefícios de exercer um papel de protagonista no cenário do poder. Eis o bônus.

Ao mesmo tempo, há um movimento de tentativa de limitar o poder da imprensa por meio do chamado “controle social” dos meios de comunicação. Há também tentativas isoladas de, por vias judiciais, impedir a publicação de informações que possam acabar definitivamente com a reputação de pessoas e empresas antes que elas sejam efetivamente condenadas pelo Poder Judiciário. Eis o ônus.

Mas a imprensa como ator político quer o bônus mas não quer o ônus. Assim, qualquer tentativa de outros atores políticos de limitar seu poder é tratado como “ataque à liberdade de expressão”. Seja uma decisão judicial contra a publicação de informação guardadas sob segredo de justiça, seja uma iniciativa legislativa para o controle social dos meios de comunicação, tudo é encarado como uma tentativa autoritária (“fascista”, “nazista” até) de limitar a liberdade de imprensa.

Aproveitam-se de que a população reconhece o valor de tais liberdades e apelam ao público como se fossem vítimas de perseguição gratuita “apenas por cumprir seu papel de imprensa”.

Categorias:Uncategorized