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Archive for abril \05\UTC 2011

17 anos sem Cobain

Hoje faz 17 anos que o guitarrista, vocalista e líder do Nirnava se foi. Uma nota triste para mim pessoalmente. Meu primeiro impulso de tocar guitarra surgiu ao ouvir pela primeira vez o clássico maior da banda, Smells Like Teen Spirit. Me facinava a idéia de poder expressar todas as minhas indignações (aos 10, 11 anos sempre as temos em demasia) gritando e empunhando uma guitarra com quilos e quilos de distorção.

Comecei a estudar música. E então, quanto mais eu conhecia bandas de rock e convivia com amigos metaleiros, mais me convencia(m) de que Kurt era um músico ruim, que o Nirvana era uma porcaria, que os solos eram fáceis, que ele cantava mal. Essa visão tecnocrática da música é regra entre os cabeludos de preto entre os quais eu alegremente me incluía.

O tempo passa e a gente aprende. Depois de anos com aquela coisa intolerante de headbanger “true”, comecei a revisitar discos que eu achava bacanas antes e que fui abandonando graças à minha visão de que toda música tinha quer ter harmonias complexas, solos virtuosos e referências de música erudita. Reencontrei-me com coisas excelentes do Paralamas do Sucesso, do Caetano Veloso (que eu ouvia com a minha mãe), do João Gilberto…

Ano passado, ainda tomado desse sentimento nostálgico, decidi reouvir o MTV Unplugged do Nirvana. E caiu a minha ficha do quanto Kurt Cobain era mais artista do que muito metaleiro por aí. Se sua banda não tinha o refino técnico (e não tinha mesmo), compensava com um som visceral. Se não tinham belas harmonias, tinham o som sujo que refletia exatamente o que era a vida daqueles três moleques naquele momento no início dos anos 90.

No fim das contas, caiu minha ficha de que não foi nenhum solo virtuoso do insuportável Yngwe Malmsteen que me fez querer tocar guitarra. Foi aquela energia, aquela urgência em ser ouvido, que Kurt transpirava nas canções do Nirvana.

Hoje, no aniversário de 17 anos de sua morte, fica aqui a homenagem com uma versão inusitada da música que me transformou em guitarrista. E o original, infinitamente melhor.

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Autoflagelação em pleno século 21? É mais comum do que você pensa…

Quando criança, fui marcado por uma cena que vi num documentário na TV a cabo: um homem a chicotear as próprias costas, sofrimento estampado na cara sem que isso o impedisse de golpear violentamente a própria lomba. O narrador explicava que se tratava de um ritual de autoflagelação.  Não que isso significasse alguma coisa para o garoto de oito anos em frente à tela.

Vez ou outra vemos na TV, seja no Fantástico ou no Discovery Channel, rituais religiosos de autoflagelação. Quase sempre, o tom de interjeição no vídeo deixa subentendido um juízo de valor sobre a prática, considerada incivilizada, primitiva, típica das sociedades não “iluminadas” pela razão iluminista ocidental. Quem não leu/assistiu “O Código Da Vinci” onde um personagem adepto da autoflagelação é a perfeita representação do fanatismo religioso?

Se pararmos para pensar, parece absurdo mesmo: o sujeito se impõe um castigo físico violento para purgar os vícios da vida mundana diante de uma divindade que observará passiva ao sacrifício e então, vingada da “desobediência” às leis da religião, trará redenção ao sujeito em questão.

E foi outra cena, vivida/presenciada por mim na semana passada, que me transportou de volta àquela cena chocante que vi na TV 16 anos atrás.

Estava na academia e pedalava um tipo de bicicleta ergométrica sem banco (um “transport” ou “elíptico” no dialeto do local). Meu monitor cardíaco apitava indicando que eu tinha de aumentar a velocidade se quisesse continuar queimando gordura. As pernas doíam depois de quase 50 minutos consecutivos de exercício.

Olhei para os lados em busca de algum incentivo, alguém para conversar ou qualquer coisa que me ajudasse a abstrair da terrível dor nas pernas. Só o que consegui ver foi mais gente fazendo caretas de dor enquanto levantavam pesos com bíceps, tríceps, peitorais, deltóides, abdomens superiores, inferiores e oblíquos.

Naquela hora, percebi que tinha o mote para uma crônica (esta aqui, no caso): fazer academia é o ritual de autoflagelação do mundo moderno. Eu, obeso, estava ali pagando meus pecados no altar do deus saúde. Purgando cada coxinha em festa de criança, cada pedaço de pizza no domingo à noite, cada cerveja num churrasco de família.

Mas não só eu. Ali também tinha a menina malhando os glúteos para tirar dali o pedaço de bolo no aniversário da sobrinha. O cara cuja barriga já começa a refletir o excesso de chope no fim de semana, pagando seus pecados com uma série de abdominais.

Assim como no caso clássico, também essa forma moderna de autoflagelação tem um quê de absurdo, um quase-masoquismo. Mas não dá pra negar a satisfação que fica quando a dor cessa e você sente que, pelo menos ali, naquela hora, ficaram para trás seus pequenos (e deliciosos) pecados do dia. Só ali, 16 anos depois, o garoto na frente da TV conseguiu entender o que se passa na cabeça daquele velho homem espancando o próprio corpo.

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