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De boas intenções…

Leio hoje uma reportagem do site Consultor Jurídico dando conta de que as gravações exibidas pelo Fantástico há algumas semanas podem não ser utilizadas como provas processuais contra os que ali aparecem tentando fraudar os cofres públicos.

Imaginei, à primeira vista, que houvesse algum problema legal relativo às gravações que, por isso, não poderiam ser acolhidas como provas. Mas a reportagem mostra que o problema, que impossibilita o uso das gravações no processo, era o próprio processo licitatório. De acordo com o Conjur, estaria ali configurado uma tentativa de cometer um crime impossível. Se não havia licitação de fato, independentemente da vontade dos “empresários” mostrados no vídeo, não haveria como lesar o patrimônio público naquela situação. E, portanto, não se pode dizer que houve cometimento (ou sequer tentativa) de ilícito penal.

A figura do crime impossível pode parecer estranha mas foi muito bem ilustrada pela professora Ana Elisa Bechara, em uma aula de Direito Penal na Faculdade de Direito do Largo São Francisco: se um homem pega um revolver e atira contra uma pessoa morta pensando que ela esteja viva, não se pode acusá-lo sequer de tentativa de homicídio. Isso porque, logicamente, o crime não poderia ser consumado então, dada a situação, não podemos aventar sequer a hipótese de uma tentativa de homicídio.

O ocorrido sucita uma questão: é possível mudar a legislação de forma a tornar atos como os mostrados pelo Fantásticos em tipos penais que permitam sancionar esse tipo de “empresário” sem que afrontemos as liberdades essenciais ao regime democrático?

Sem dúvida, o trabalho da imprensa foi feito de boa vontade, baseado na crença de que ali estariam provas irrefutáveis para condenar os usurpadores de dinheiro público retratados. O Judiciário dirá que o problema está na produção incompetente das provas. A opinião pública dirá que o Judiciário não condena porque não quer ou porque é “vendido”. E o resultado, porém, tende a ser mais uma vez a impunidade.

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Só mais cinco minutinhos…

Aqui na Paulicéia Desvairada, o inverno chegou para ficar. E trouxe com ele o pior inimigo daqueles que (como eu) não conseguem se desvencilhar dos tentáculos do cobertor a nos segurar na cama: o botão soneca.

Que atire a primeira pedra quem nunca perdeu a hora depois de apertar repetidas vezes o botão do “só mais cinco minutinhos”. Quem nunca chegou atrasado a uma reunião importante depois de estender além da conta os momentos preguiçosos que só a cama quente nos proporciona? Quem nunca chegou atrasado naquela prova impiedosamente marcada para a primeira aula de segunda-feira de manhã?

A idéia não é de todo má. É uma tentativa tecnológica de substituir o melhor despertador que a natureza inventou: a mãe. Porque, para ela, você até pode pedir mais cinco minutinhos. Mas se não acordar na segunda chamada, amigo, aí tem puxão de cobertor, tem cortina aberta e, em casos extremos, até água na cara.

Acontece que o seu smartphone não é tão “smart” quanto a sua mãe. E o botão soneca não tem limites: os cinco minutos viram 10, depois 15… É como uma droga, é o crack dos sonolentos.

Se o álcool é o maior responsável pelos acidentes de trânsito, o botão soneca com certeza é o que vem em segundo no ranking. Pense quantos acidentes são causados diariamente por atrasadinhos que passaram mais tempo do que deviam debaixo das cobertas (tendo o famigerado meliante “soneca” como cúmplice).

Se o Pedro Bial fosse te dar um só conselho, ele diria: use filtro solar. Eu diria: não use o botão soneca.

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Intervalo de jogo

30 de junho de 2011 Deixe um comentário

30 de junho. Fim de primeiro tempo. Nenhum juiz apitou mas acabaram os primeiros 45 minutos de bola rolando este ano. Não reparo nessas coisas normalmente. Mesmo depois de entrar na faculdade, num curso de disciplinas semestrais, nunca fui de contar a vida em ciclos de seis meses.

Mas uma amiga chamou a atenção para o fato adicionando uma incômoda pergunta: “metade do ano passou e o que você fez?”. A pergunta intimida à primeira vista. O que eu fiz? Nenhum um passe de calcanhar, nenhum lançamento, muito menos um gol… Só arremessos laterais mal-batidos, uma dúzia de caneladas soltas.

“Não pode ter sido assim tão ruim”, pensei. Resolvi resgatar uma lista que eu tinha feito com as minhas promessas de ano novo. O time das promessas não-cumpridas está ganhando como de costume. Mas a margem está mais apertada do que nunca.

Se por um lado não me formei, não viajei com os amigos, nem cumpri minha promessa de ficar um ano sem fast-food e refrigerante; por outro lado, voltei para academia, emagreci 10kg, comecei um plano de previdência pra mim e para a minha filha.

Ver a incisiva pergunta dessa amiga foi bom. Serviu para eu revisitar essa lista de objetivos e refletir sobre meus erros e acertos de janeiro para cá. Fiz um primeiro tempo bom, mas ainda estou perdendo.

O técnico já fez as alterações, já chamou a atenção do meu lateral esquerdo (que vai marcar o refrigerante) e dos atacantes (que vão agitar uma viagem com os amigos). Agora é sair do vestiário, subir as escadas e entrar em campo que o segundo tempo já tá aí.

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Quem mexeu no meu Facebook?

30 de junho de 2011 Deixe um comentário

“Fulano de Tal está em um relacionamento enrolado”. Ao ver a mensagem no Facebook, fiquei intrigado. Há poucos dias eu conversava com o fulano-de-tal em questão e ele queixava-se justamente de sua vida amorosa que estava meio parada.

Curioso incurável, corri para perguntar. “Um FDP mexeu enquanto eu estava fora do computador”, respondeu. Eu ri. Achei de um humor sagaz: o cara viu lá o Facebook do outro aberto, dando sopa, clique-clique e voilá.

Meu amigo ficou puto. Classificou de cretino não só o autor da brincadeira como o babaca aqui que riu da piada. “Qual é a graça?”, perguntava indignado.

Não consegui responder. Racionalmente não pude explicar porque aquilo me provocara o riso. Mas, gostando ou não, é fato: eu ri.

Ele despejou argumentos. “Rede social hoje em dia é coisa séria”, disse irritado. E mandou-me um link para uma reportagem mostrando que as empresas vem crescentemente monitorando a vida de seus funcionários e de possíveis contratados na rede. “Por que o cara não vai cuidar da vida dele? Tem que vir mexer no meu PC? Pra que?”, continuou, indignado.

Argumentei que ele podia bloquear o PC ou deslogar no Facebook ao sair da sala. Ele rebateu que era ridículo uma pessoa adulta cercada por outras pessoas adultas ter de se preocupar em bloquear seu PC cada vez que levanta para tomar água ou dar uma urinada (a palavra não foi bem essa, mas ok).

Então apelei para o argumento preferido de quem não tem razão. Disse que humor era “muito subjetivo, cada um acha graça de uma coisa e ponto”. Sabia ali que estava usando um argumento ruim. E, por isso mesmo, fiquei muito tempo depois pensando e tentando responder com sinceridade à pergunta do meu nobre colega.

Seria meu riso fruto de pura canalhice, da satisfação em ver outro ser humano sendo sacaneado? Seria um sintoma da minha idade mental evidentemente incompatível com meus 20 e poucos anos de vida? Seria ambos?

Um pouco dos dois, eu acho. O humor contido numa situação dessas é o mesmo contido nas videocassetadas dominicais. É o prazer rasteiro, humano demasiado humano, de ver outra pessoa numa situação embaraçosa.  E, portanto, tem sim um fundinho de falha de caráter do risonho de plantão.

Além disso, tem um quê de imaturidade. Falta aquela noção de que podia ser com você. Falta se colocar no lugar do outro, pensar em como você se sentiria naquela situação vexatória.

Aí o nobre leitor pergunta: “E o que há de vexame em ver alterado seu status de relacionamento na rede social?”. É só pensar o constrangimento que aconteceria se o meu amigo estivesse paquerando (ô palavrinha horrível!) uma menina e ela visse no perfil dele que ele está “em um relacionamento enrolado”.

Sim, eu estava errado. Mas como não sou e nem quero ser perfeito, eu ri. Como rio, há anos, dos pobres seres humanos se estabacando nas videocassetadas.

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17 anos sem Cobain

Hoje faz 17 anos que o guitarrista, vocalista e líder do Nirnava se foi. Uma nota triste para mim pessoalmente. Meu primeiro impulso de tocar guitarra surgiu ao ouvir pela primeira vez o clássico maior da banda, Smells Like Teen Spirit. Me facinava a idéia de poder expressar todas as minhas indignações (aos 10, 11 anos sempre as temos em demasia) gritando e empunhando uma guitarra com quilos e quilos de distorção.

Comecei a estudar música. E então, quanto mais eu conhecia bandas de rock e convivia com amigos metaleiros, mais me convencia(m) de que Kurt era um músico ruim, que o Nirvana era uma porcaria, que os solos eram fáceis, que ele cantava mal. Essa visão tecnocrática da música é regra entre os cabeludos de preto entre os quais eu alegremente me incluía.

O tempo passa e a gente aprende. Depois de anos com aquela coisa intolerante de headbanger “true”, comecei a revisitar discos que eu achava bacanas antes e que fui abandonando graças à minha visão de que toda música tinha quer ter harmonias complexas, solos virtuosos e referências de música erudita. Reencontrei-me com coisas excelentes do Paralamas do Sucesso, do Caetano Veloso (que eu ouvia com a minha mãe), do João Gilberto…

Ano passado, ainda tomado desse sentimento nostálgico, decidi reouvir o MTV Unplugged do Nirvana. E caiu a minha ficha do quanto Kurt Cobain era mais artista do que muito metaleiro por aí. Se sua banda não tinha o refino técnico (e não tinha mesmo), compensava com um som visceral. Se não tinham belas harmonias, tinham o som sujo que refletia exatamente o que era a vida daqueles três moleques naquele momento no início dos anos 90.

No fim das contas, caiu minha ficha de que não foi nenhum solo virtuoso do insuportável Yngwe Malmsteen que me fez querer tocar guitarra. Foi aquela energia, aquela urgência em ser ouvido, que Kurt transpirava nas canções do Nirvana.

Hoje, no aniversário de 17 anos de sua morte, fica aqui a homenagem com uma versão inusitada da música que me transformou em guitarrista. E o original, infinitamente melhor.

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Autoflagelação em pleno século 21? É mais comum do que você pensa…

Quando criança, fui marcado por uma cena que vi num documentário na TV a cabo: um homem a chicotear as próprias costas, sofrimento estampado na cara sem que isso o impedisse de golpear violentamente a própria lomba. O narrador explicava que se tratava de um ritual de autoflagelação.  Não que isso significasse alguma coisa para o garoto de oito anos em frente à tela.

Vez ou outra vemos na TV, seja no Fantástico ou no Discovery Channel, rituais religiosos de autoflagelação. Quase sempre, o tom de interjeição no vídeo deixa subentendido um juízo de valor sobre a prática, considerada incivilizada, primitiva, típica das sociedades não “iluminadas” pela razão iluminista ocidental. Quem não leu/assistiu “O Código Da Vinci” onde um personagem adepto da autoflagelação é a perfeita representação do fanatismo religioso?

Se pararmos para pensar, parece absurdo mesmo: o sujeito se impõe um castigo físico violento para purgar os vícios da vida mundana diante de uma divindade que observará passiva ao sacrifício e então, vingada da “desobediência” às leis da religião, trará redenção ao sujeito em questão.

E foi outra cena, vivida/presenciada por mim na semana passada, que me transportou de volta àquela cena chocante que vi na TV 16 anos atrás.

Estava na academia e pedalava um tipo de bicicleta ergométrica sem banco (um “transport” ou “elíptico” no dialeto do local). Meu monitor cardíaco apitava indicando que eu tinha de aumentar a velocidade se quisesse continuar queimando gordura. As pernas doíam depois de quase 50 minutos consecutivos de exercício.

Olhei para os lados em busca de algum incentivo, alguém para conversar ou qualquer coisa que me ajudasse a abstrair da terrível dor nas pernas. Só o que consegui ver foi mais gente fazendo caretas de dor enquanto levantavam pesos com bíceps, tríceps, peitorais, deltóides, abdomens superiores, inferiores e oblíquos.

Naquela hora, percebi que tinha o mote para uma crônica (esta aqui, no caso): fazer academia é o ritual de autoflagelação do mundo moderno. Eu, obeso, estava ali pagando meus pecados no altar do deus saúde. Purgando cada coxinha em festa de criança, cada pedaço de pizza no domingo à noite, cada cerveja num churrasco de família.

Mas não só eu. Ali também tinha a menina malhando os glúteos para tirar dali o pedaço de bolo no aniversário da sobrinha. O cara cuja barriga já começa a refletir o excesso de chope no fim de semana, pagando seus pecados com uma série de abdominais.

Assim como no caso clássico, também essa forma moderna de autoflagelação tem um quê de absurdo, um quase-masoquismo. Mas não dá pra negar a satisfação que fica quando a dor cessa e você sente que, pelo menos ali, naquela hora, ficaram para trás seus pequenos (e deliciosos) pecados do dia. Só ali, 16 anos depois, o garoto na frente da TV conseguiu entender o que se passa na cabeça daquele velho homem espancando o próprio corpo.

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A estratégia chinesa do Banco do Brasil

16 de abril de 2010 Deixe um comentário

Leio hoje a notícia que o Banco do Brasil está com “negociações avançadas” para aquisição de 51% do Banco da Patagônia, quinto maior banco da Argentina. Segundo a coluna Mercado Aberto, da Folha de SP, o presidente do BB Aldemir Bendine deve ir à Argentina na próxima quinta-feira (22) para assinar os papéis e fechar o negócio que ainda depende de autorização do Banco Central Argentino.

Na última terça-feira, o BB já havia estado nas manchetes dos cadernos de economia por causa de outro movimento de internacionalização: o gigante tupiniquim obteve autorização do Federal Reserve (o BC norte-americano) para adquirir instituições financeiras nos Estados Unidos e operar no mercado de investimentos do país.

É muito interessante a postura do Banco do Brasil, semelhante à postura do governo chinês em relação à crise de 2008/2009. O Banco do Brasil aproveitou o momento complicado da economia para fazer diversas aquisições (incluindo aí a compra da Nossa Caixa) e agora, com a economia voltando para os trilhos, se aproveita da expansão de seus ativos para captar mais recursos e continuar o processo de expansão.

Ontem, o BB anunciou que pretende emitir novas ações no mercado. Levando-se em conta o custo das ações no mercado, o projeção é de que a captação de recursos chegue a quase R$ 9 bilhões. O dinheiro seria utilizado para a ampliação da carteira de crédito e para impulsionar o movimento de internacionalização do banco. É um movimento arrojado, muito diferente do que seria de se esperar de um banco público. Sem dúvida, é muito positivo.

Em primeiro lugar, porque deixa claro ao público que a gestão atual do banco não pensa de forma burocrática que normalmente é associada à gestão pública. Há um entendimento (positivo, ao meu ver) de que é necessário ganhar mercado para competir de igual para igual com gigantes como o Itau Unibanco, o Bradesco e o Santander. O fortalecimento das posições do BB nesse momento é muito bom se levarmos em conta a estratégia agressiva do Santander em relação ao mercado brasileiro, o expansionismo do Itaú e a vontade de recuperar a liderança por parte do Bradesco.

Além disso,  o crescimento da oferta de crédito do Banco do Brasil é sempre uma boa notícia para o crescimento da economia. Afinal, como as taxas de juros praticadas pelo BB costumam ser mais baixas do que a concorrência, é sinal de mais dinheiro circulando na economia e, portanto, mais consumo e potencialmente mais crescimento.

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