Imprensa como partido: o bônus e o ônus

1 de abril de 2010 1 comentário

Uma das características emergentes no cenário contemporâneo que mais me fascina é o papel da impresa e da mídia no jogo político. No Brasil, por exemplo, vivemos um cenário de radicalização do protagonismo da grande imprensa. Recentemente, houve até manifestações de dirigentes das associações de jornais dizendo que cabia à imprensa fazer oposição tendo em vista a atual fragilidade dos partidos de oposição.

Os analistas de esquerda atribuem o fato ao evidente alinhamento ideológico entre os proprietários dos veículos de informação e os partidos liberais que hoje compõe a oposição tupiniquim (PSDB, DEM e, com menos relevância, o PPS).

Eu, no entanto, tendo a acreditar que esse fenômeno seja muito mais complexo do que um mero alinhamento ideológico à direita: o fato é que os grupos de mídia se tornaram também eles grandes corporações e, dessa forma, compõe um grupo de interesse (um conjunto de atores com objetivos em comum) dentro do cenário político.

Ocorre que, dado o crescimento exponencial do peso econômico da informação, esse grupo de interesse recém-constituído rivaliza em “poder de fogo” com governos, indústrias, partidos políticos e outros com grande peso no equílibrio de forças de que trata o jogo político.

Com o advento da internet, a publicação de uma informação errada ou imprecisa (seja por incompetência ou por má-fé) pode acarretar perdas financeiras mais do que relevantes além de danos irreparáveis à imagem de uma pessoa, empresa ou instituição de qualquer tipo. Isso se traduz, sem dúvida, em poder de barganha nas disputas inerentes ao embate político. Dessa forma, a imprensa goza dos benefícios de exercer um papel de protagonista no cenário do poder. Eis o bônus.

Ao mesmo tempo, há um movimento de tentativa de limitar o poder da imprensa por meio do chamado “controle social” dos meios de comunicação. Há também tentativas isoladas de, por vias judiciais, impedir a publicação de informações que possam acabar definitivamente com a reputação de pessoas e empresas antes que elas sejam efetivamente condenadas pelo Poder Judiciário. Eis o ônus.

Mas a imprensa como ator político quer o bônus mas não quer o ônus. Assim, qualquer tentativa de outros atores políticos de limitar seu poder é tratado como “ataque à liberdade de expressão”. Seja uma decisão judicial contra a publicação de informação guardadas sob segredo de justiça, seja uma iniciativa legislativa para o controle social dos meios de comunicação, tudo é encarado como uma tentativa autoritária (“fascista”, “nazista” até) de limitar a liberdade de imprensa.

Aproveitam-se de que a população reconhece o valor de tais liberdades e apelam ao público como se fossem vítimas de perseguição gratuita “apenas por cumprir seu papel de imprensa”.

Anúncios
Categorias:Uncategorized

Terrorismo da inflação e “cabeças de planilha”

31 de março de 2010 1 comentário

É senso comum que o grande legado do Plano Real é ter acabado com a inflação galopante que assolou por diversas vezes a economia brasileira ao longo de sua história. Nos Estados Unidos, por outro lado, a inflação nunca chegou aos níveis extremos que vivemos por aqui.

Por isso, não deixa de ser curioso notar o medo que os norte-americanos tem do dragão inflacionário.  A paranóia é tanta que rendeu até um post no blog do Paul Krugman, Nobel de economia de 2008 e colunista do New York Times: http://migre.me/sI0b.

Essa “sindrome do pânico inflacionário” que o Krugman mostra nos EUA acontece de um jeito bem parecido no Brasil. Os analistas se restringem a planilhas segundo as quais o aumento da base monetária ou o câmbio acarretam um aumento de X% na inflação.  Entretanto, as conjunturas econômicas tem sempre suas particularidades e o comportamento dos agentes econômicos acaba escapando dos pressuspostos em que os “cabeças de planilha”* se baseiam.

É o caso que o Krugman descreve: analistas temem que o aumento da base monetária do Federal Reserve acabe em inflação. O pensamento é simples e linear: mais dinheiro, mais inflação. O problema é que para esse volume maior de dinheiro causar inflação ele precisa circular. E a emissão desse dinheiro ocorreu justamente porque não havia dinheiro em circulação. Logo, o aumento da base monetária não vai causar aumento descontrolado da circulação de dinheiro e não deve, portanto, ter grande efeito sobre a inflação.

*A expressão é do jornalista Luis Nassif, grande entendedor de economia e um dos poucos jornalistas com conhecimento do assunto para ir além das repetições de dogmas sem sentido que vemos no noticiário por aí.

Categorias:Uncategorized

Apresentação

31 de março de 2010 2 comentários

Criar um blog é uma grande responsabilidade.

Em um tempo onde há uma clara tendência de perda de credibilidade entre grandes conglomerados de mídia; em um tempo onde cada vez mais o conhecimento criado e compartilhado em redes se torna dominante; em um tempo onde a internet vem crescendo a passos largos como principal fonte de informação das pessoas; escrever sobre qualquer assunto demanda um enorme senso de responsabilidade.

Responsabilidade de não escrever bobagens que podem ser indefinidamente reproduzidas na rede mundial de computadores. Responsabilidade para cumprir com o compromisso implícito que se estabelece com seu leitor quando você torna sua produção intelectual (seja texto, imagem, áudio ou vídeo) pública. Responsabilidade de fugir do mero opinionismo e difundir informação que beneficie os que dela se apropriam.

Com a minha curta experiência em redações e o parco preparo intelectual fornecido pela vida acadêmica, julgo que posso escrever com alguma propriedade sobre economia e temas relacionados às ciências sociais. Algumas vezes, posso me arriscar a falar sobre filosofia. E, para descontrair, o caro leitor pode eventualmente encontrar posts sobre a minha paixão que é a música.

Espero sinceramente que minhas postagens sejam nada mais (e nada menos) do que boas contribuições para o debate dos temas sobre os quais me proponho a escrever. E espero que você, que está lendo este post de apresentação, esteja de volta aqui outras vezes para ler, comentar, criticar, discutir, compartilhar e acrescentar.

Seja bem-vindo!

Categorias:Uncategorized